Quando alguém instala um servidor MCP, escolhe um transporte. Quase sempre por conveniência, sem registrar por quê. Essa escolha define superfície de ataque, modelo de identidade e o que é possível logar — e as duas opções falham de maneiras opostas.
stdio: sem porta, mas não sem risco
No transporte stdio, o cliente sobe o servidor como processo filho e conversa por entrada e saída padrão. Não há porta escutando, o que dá uma sensação de segurança: varredura de rede não encontra nada.
O risco mudou de lugar, não desapareceu. O servidor herda o contexto do usuário que o iniciou — variáveis de ambiente, tokens, chaves SSH, sessão de nuvem. E o próprio mecanismo de inicialização virou vulnerabilidade sistêmica: a pesquisa da OX Security de abril de 2026 descreveu parâmetros de configuração passados diretamente ao shell do sistema operacional sem sanitização, atingindo os SDKs oficiais em quatro linguagens, com estimativa de 200 mil servidores potencialmente afetados.
Sem porta não significa sem superfície. Significa que a superfície é o processo, e você não está olhando pra ela.
HTTP: auditável, e frequentemente aberto
O transporte HTTP torna o servidor um serviço de rede convencional — o que é bom, porque quinze anos de ferramental se aplicam: WAF, gateway, mTLS, log de acesso. O problema é que ele também fica alcançável por quem você não previu.
A medição disponível não é animadora: um estudo de larga escala apontou que cerca de 40% dos servidores remotos expõem suas ferramentas sem autenticação alguma. E servidor remoto sem autenticação não é servidor vulnerável — é API pública de execução de ações.
Como decidir
- Ferramenta de uso individual, na máquina do usuário → stdio, com argumentos de configuração validados e o processo isolado do resto do ambiente do usuário.
- Serviço compartilhado por vários agentes ou pessoas → HTTP com OAuth 2.1, validação de audiência e log centralizado. Não vale improvisar.
- Nunca: HTTP em 0.0.0.0 sem autenticação “porque é só interno”. Rede interna virou perímetro plano na maioria das empresas.
O que registrar na decisão
Anote, por servidor: transporte escolhido, motivo, quem pode alcançar, qual identidade o processo carrega e onde vai o log. São cinco linhas. A ausência dessas cinco linhas é o que faz uma escolha de conveniência virar decisão arquitetural permanente que ninguém consegue justificar seis meses depois.